Existe um momento em que um evento deixa de ser apenas uma sequência de palestras e passa a representar um movimento. Foi exatamente essa percepção que tivemos ao participar do primeiro encontro presencial da Comunidade Cultura do Design Brasileiro, realizado em Bento Gonçalves, reunindo arquitetos, designers, especificadores, empresários, indústrias e profissionais de diferentes regiões do país.

A convite de André Menin, fundador da Refresher, parceiro multiplicador da Casa Design Serra e colunista do Design Serra, estivemos presentes acompanhando um dia de muito conteúdo, reflexão e troca de experiências.
Mais do que falar sobre produtos, o evento propôs uma mudança de mentalidade: compreender o design como inteligência de mercado, ferramenta de inovação, construção de marcas e geração de valor para pessoas e empresas.
Essa visão dialoga diretamente com aquilo que o Design Serra e a Casa Design Serra vêm defendendo há anos: o design não pertence apenas à arquitetura ou ao desenvolvimento de produtos. Ele está presente na forma como pensamos negócios, construímos experiências, comunicamos marcas e transformamos a relação entre empresas e pessoas.





Abertura: um convite para valorizar a brasilidade
Na abertura do evento, André Menin apresentou o propósito da Comunidade Cultura do Design Brasileiro e lançou uma provocação importante: por que admiramos tanto o que vem de fora e, muitas vezes, deixamos de reconhecer o potencial que existe dentro do próprio Brasil?
Segundo ele, o Brasil já possui criatividade, indústria, profissionais qualificados e capacidade técnica para competir em nível internacional. O desafio agora é fortalecer a confiança na identidade brasileira e transformar esse potencial em posicionamento estratégico.
Outro ponto de destaque foi a necessidade de aproximar indústria, designers, especificadores, varejo e consumidor final. Para André, muitos lançamentos ainda acontecem sem uma etapa estruturada de pesquisa e compreensão do comportamento das pessoas, fazendo com que excelentes produtos cheguem ao mercado sem transmitir seu verdadeiro valor.
Também foi apresentada uma metodologia baseada em pesquisa contínua, geração de valor, comunicação, experiência e retroalimentação do processo de desenvolvimento, substituindo a lógica de lançar produtos e apenas esperar que tenham sucesso.


Marne Barbieri: comportamento, pesquisa e o novo jeito de morar
Representando a Eucatex, Marne Barbieri conduziu uma palestra que mostrou como grandes indústrias estruturam seus processos de inovação a partir da pesquisa de comportamento.
Ela apresentou o trabalho desenvolvido pela empresa de tendências Tender, responsável por estudar macrotendências mundiais, comportamento de consumo e novos modos de viver para orientar o desenvolvimento de coleções da Eucatex.
Uma das mensagens mais relevantes foi que tendência não significa copiar referências internacionais.
Segundo Marne, viajar, observar e pesquisar continuam sendo fundamentais, porém o verdadeiro diferencial está na capacidade de interpretar essas referências à realidade brasileira, respeitando nossa cultura, diversidade regional e formas de viver.
Outro tema de grande impacto foi o conforto sensorial.
Ela destacou como o design emocional, o neurodesign e a neuroarquitetura ganham protagonismo diante de uma sociedade cada vez mais sobrecarregada por estímulos digitais. Materiais, iluminação, texturas, acústica e cores passam a desempenhar um papel decisivo na criação de ambientes capazes de acolher, reduzir o estresse e promover bem-estar.
Marne também apresentou os quatro grandes grupos de gostos utilizados pela metodologia da Tender, mostrando que compreender perfis de comportamento permite desenvolver produtos mais assertivos, com maior identificação emocional e melhor percepção de valor pelo consumidor.





Jean Dallazem: quem não conta a história perde valor
Se a primeira parte do evento mostrou como nascem os produtos, Jean Dallazem apresentou como eles precisam ser comunicados.
Sua palestra, intitulada “O Último Mensageiro”, trouxe um conceito simples e extremamente poderoso: pessoas não compram apenas produtos, compram histórias.
Jean compartilhou sua trajetória como arquiteto e fotógrafo, demonstrando que imagens e narrativas são capazes de transformar completamente a percepção de um projeto ou de um objeto.
Entre os exemplos apresentados, destacou um experimento internacional em que objetos comuns tiveram seu valor multiplicado apenas porque receberam uma boa história. A reflexão foi direta: se até um objeto simples pode ganhar significado através do storytelling, quanto potencial existe nos produtos desenvolvidos pela indústria brasileira que ainda não comunicam sua essência?
Jean explicou que existe uma cadeia composta por designers, indústria, marketing, comercial, varejo e especificadores.
Quando um desses elos deixa de transmitir a história do produto, a mensagem se perde.
Nesse momento, o consumidor passa a comparar apenas preço, e não valor.
Sua principal provocação foi clara:
“O especificador vende sonhos, experiências e futuro. Para isso, ele precisa receber argumentos e histórias verdadeiras.”




Painel: indústria, designers e especificadores em busca da mesma linguagem
O painel reuniu representantes da Eucatex, Madelustre, Cripaza, além de membros da Confraria Refresher, criando um debate extremamente rico sobre posicionamento, identidade e comunicação entre indústria e mercado.
Um dos questionamentos centrais foi:
Como fazer com que o varejo tenha orgulho de apresentar um produto pela sua marca, sem esconder sua origem?
As respostas convergiram para um mesmo ponto.
Produtos precisam carregar propósito, pesquisa, identidade e posicionamento.
Não basta desenvolver algo tecnicamente bem executado. É necessário construir uma marca que gere confiança e oferecer argumentos que permitam ao especificador defender aquela escolha diante do cliente.
Também ficou evidente que storytelling não é responsabilidade apenas do marketing.
Ele começa na pesquisa, passa pelo design, é fortalecido pela indústria, traduzido pela comunicação e precisa chegar completo até quem apresenta o produto ao consumidor final.





Lorí Crízel: o valor não está no produto. Está na experiência.
Encerrando o evento, o professor e pesquisador Lorí Crízel apresentou uma das palestras mais provocativas do encontro.
Sua primeira afirmação sintetizou toda a tarde:
“O valor não está no produto. O valor está na experiência.”
Utilizando conceitos de neurociência, neurodesign, neuroarquitetura e comportamento do consumidor, Lorí demonstrou que empresas deixam de competir apenas por características técnicas quando passam a construir experiências significativas.
Para ilustrar essa lógica, comparou o consumo de um café em uma cafeteria premium e em um estabelecimento simples. O produto pode ser praticamente o mesmo, mas o valor percebido muda completamente porque a experiência é diferente.
Outro exemplo marcante foi a Apple, utilizada como referência de uma empresa que integra pesquisa, design, arquitetura, marketing, vendas e experiência para construir desejo, fidelização e valor percebido.
Ao longo da palestra, Lorí reforçou que o comportamento humano muda constantemente e que o papel da indústria não é apenas desenvolver produtos, mas compreender profundamente essas mudanças para criar soluções relevantes.
Segundo ele, o futuro pertence às empresas que pesquisam comportamentos antes de desenvolver produtos.




Muito além de um evento
Ao final do encontro, ficou evidente que a Comunidade Cultura do Design Brasileiro não busca apenas promover palestras.
Ela propõe uma nova forma de compreender o design.
Uma visão em que pesquisa, comportamento, identidade, comunicação, experiência e estratégia caminham juntas para fortalecer empresas, profissionais e toda a cadeia da arquitetura, do design e da indústria.
Para o Design Serra, participar desse momento reforçou algo que também faz parte da essência do nosso trabalho: conectar pessoas, conhecimento e negócios através do design.
Nosso agradecimento ao André Menin, à equipe da Refresher, aos palestrantes, patrocinadores, participantes e a todos que contribuíram para tornar este primeiro encontro um marco na valorização do design brasileiro.
Que este seja apenas o início de um movimento capaz de fortalecer nossa identidade, estimular a inovação e mostrar que o Brasil possui criatividade, talento e competência para construir um design cada vez mais autoral, estratégico e conectado com as necessidades das pessoas.















Fotos: Cobertura Pluz Productions
