Segundo painel do Mundo Business Serra Gaúcha, promovido pela Apex, reuniu lideranças da gastronomia, hotelaria, enoturismo e mercado imobiliário para discutir o desenvolvimento sustentável da região e sua consolidação como destino internacional.

A Serra Gaúcha já não comercializa apenas hospedagem, gastronomia, vinho ou imóveis. A região avança na construção de um ecossistema integrado, no qual território, identidade, hospitalidade e qualidade de vida se transformam em experiências capazes de gerar valor econômico, atrair investimentos e ampliar a permanência dos visitantes.
Essa foi a principal reflexão do painel “A Serra Gaúcha como destino de experiência: turismo, hospitalidade e alto padrão”, realizado durante o Mundo Business Serra Gaúcha, promovido pela Apex nesta quinta-feira, 16 de julho, no Boulevard Convention, em Garibaldi.
Mediado por Cristina Della Giustina, gerente de Relacionamento Private da Apex, o encontro reuniu Paulo Geremia, fundador do Di Paolo; Rafael Peccin, representando Luciano Peccin e a Casa Hotéis; Débora Dadalt, CEO do Spa do Vinho Hotel & Condomínio Vitivinícola; e Lúcio Possebon, CEO da Mon Faro Incorporadora.
A conversa mostrou que o próximo ciclo de crescimento da Serra Gaúcha dependerá da integração entre três grandes forças: gastronomia, hospitalidade e mercado imobiliário. Mais do que setores independentes, essas atividades passam a compor uma mesma economia da experiência.


Da hospedagem para a experiência completa
Os dados apresentados na abertura do painel ajudam a dimensionar a transformação do turismo regional. Em 2025, Gramado recebeu aproximadamente 7,9 milhões de visitantes, enquanto Gramado e Canela movimentaram cerca de R$ 1,5 bilhão em Valor Geral de Vendas, o VGV, em lançamentos imobiliários nos últimos 12 meses.
O metro quadrado nos empreendimentos de alto padrão já supera R$ 19,9 mil, enquanto projetos ligados a marcas como Kempinski, W Marriott, Fasano e Parador Vale dos Vinhedos sinalizam uma nova etapa para a hospitalidade e o real estate da Serra Gaúcha.
O crescimento desses investimentos demonstra que o território deixou de ser visto apenas como destino de passagem. A região passa a ser percebida como um lugar para permanecer, vivenciar, investir e morar.
Nesse novo contexto, a experiência não começa no hotel nem termina no restaurante. Ela envolve a paisagem, a arquitetura, os serviços, a gastronomia, o vinho, a mobilidade, o acolhimento e a conexão emocional estabelecida com o território.



Gastronomia como motivo de viagem
Para Paulo Geremia, a gastronomia tornou-se um componente indispensável para o desenvolvimento turístico, mas precisa caminhar junto com a infraestrutura, a hotelaria, os eventos e os demais atrativos da região.
Fundador do Di Paolo, marca que nasceu em Garibaldi e atualmente está presente em diferentes estados brasileiros, Geremia destacou a importância da autenticidade. Segundo ele, o visitante deseja conhecer produtos ligados à origem, à cultura e à história do destino, mas também precisa encontrar diversidade suficiente para permanecer mais tempo na região.
O empresário também ressaltou a importância de os estabelecimentos atenderem bem o próprio público local. Quando um restaurante conquista a confiança dos moradores, das famílias e das empresas da comunidade, passa a ser recomendado naturalmente por todo o trade turístico.
Geremia apresentou ainda a experiência do Paulo Geremia Vino & Cucina, empreendimento implantado no Vale dos Vinhedos e estruturado para integrar vinhedos, produção vitivinícola, gastronomia e contato com a natureza.
A proposta é permitir que o visitante vivencie, em um mesmo espaço, diferentes etapas da cultura do vinho, desde o desenvolvimento da videira até a degustação e a harmonização gastronômica.
Outro ponto defendido pelo empresário foi a ampliação dos horários de atendimento.
“O turista quer liberdade para almoçar no horário que melhor se adapta à sua experiência.”
Na avaliação de Geremia, operações com atendimento contínuo durante o dia aumentam o acolhimento e permitem que o visitante organize sua jornada com maior liberdade.


Marcas regionais como embaixadoras do território
A expansão do Di Paolo para outras regiões do Brasil também foi apresentada como uma estratégia de divulgação da Serra Gaúcha.
Ao levar a gastronomia típica da imigração italiana para cidades como Brasília e outras capitais, a empresa não apenas amplia sua atuação comercial. Cada nova unidade funciona como um ponto de contato com a cultura regional e desperta o interesse das pessoas em conhecer a origem daquele produto.
A presença de marcas ligadas ao vinho, aos móveis, à gastronomia e ao design em diferentes partes do país fortalece a percepção da Serra Gaúcha como território de excelência.
Assim, a expansão nacional das empresas locais também pode contribuir para a atração de novos visitantes, investidores e negócios.
A construção de um destino exige planejamento
Ao representar a Casa Hotéis, Rafael Peccin compartilhou aprendizados acumulados ao longo de décadas de atuação da família no turismo de Gramado.
A trajetória familiar está ligada a iniciativas que ajudaram a construir a identidade da cidade, como o Natal Luz, o café colonial, a produção artesanal de chocolates, o cuidado com os jardins e o desenvolvimento de experiências de hospitalidade.
Segundo Peccin, o sucesso de um destino também traz riscos. À medida que uma região se torna mais conhecida, passa a atrair investidores que nem sempre compreendem a cultura e os elementos que formaram sua identidade.
Esse processo pode gerar descaracterização arquitetônica, cultural e territorial.
Por isso, planos diretores, regras urbanísticas e critérios para novos empreendimentos tornam-se fundamentais para equilibrar crescimento e preservação.
Essa preocupação orientou a chegada da Casa Hotéis ao Vale dos Vinhedos. O grupo passou anos buscando uma localização adequada e trabalhando na aprovação do projeto do Parador Vale dos Vinhedos, respeitando as diretrizes territoriais da região.
O empreendimento deverá contar com 54 acomodações integradas a uma área de aproximadamente 20 hectares de vinhedos, com investimento estimado em R$ 60 milhões.
A proposta não é entregar somente quartos ou gastronomia, mas criar uma imersão no destino, fundamentada no cuidado, nos detalhes, na cultura e no acolhimento.

Hotelaria premium reduz a sazonalidade
Para Débora Dadalt, a chegada da hotelaria premium representa um marco de maturidade para os destinos de enoturismo.
O crescimento sustentável, segundo ela, não depende apenas de aumentar o volume de visitantes. É necessário qualificar o fluxo turístico e desenvolver uma infraestrutura compatível com um público mais exigente.
O visitante de maior poder aquisitivo tende a permanecer mais tempo, viajar fora das temporadas tradicionais e participar de experiências como eventos exclusivos, celebrações, casamentos e programações gastronômicas.
Esse comportamento ajuda a reduzir a sazonalidade e a distribuir a receita turística ao longo de todo o ano.
Durante o painel, Débora apresentou referências internacionais que ajudam a compreender o impacto da permanência do visitante.
Em Napa Valley, nos Estados Unidos, cerca de 70% da receita turística é gerada por pessoas que se hospedam no destino. O dado demonstra que quem permanece mais de uma noite movimenta não apenas a hotelaria, mas também restaurantes, vinícolas, comércio, serviços e atividades de lazer.
Na região francesa de Champagne, aproximadamente 100 mil trabalhadores sazonais são mobilizados durante o período da colheita. O território movimenta bilhões de euros com a comercialização de milhões de garrafas para mercados internacionais.
Esses exemplos mostram que o vinho pode ser a origem da experiência, mas a captura de valor depende de uma estrutura mais ampla.

Enoturismo como motor econômico
No Vale dos Vinhedos, o impacto do enoturismo já é decisivo para a sustentabilidade de muitos negócios.
Débora destacou que, para alguns pequenos produtores, até 90% da receita pode estar relacionada às vendas realizadas diretamente ao visitante.
A comercialização dentro da propriedade aproxima o consumidor do produtor, aumenta o valor percebido e permite que o vinho seja compreendido dentro de seu contexto cultural, geográfico e familiar.
As Indicações Geográficas e as Denominações de Origem também foram destacadas como instrumentos essenciais para transformar a reputação do território em um ativo econômico coletivo.
O Vale dos Vinhedos foi pioneiro no Brasil na obtenção de uma Indicação de Procedência e, posteriormente, de uma Denominação de Origem para seus vinhos e espumantes.
Essas certificações não beneficiam somente uma empresa. Elas fortalecem todo o território, protegem sua identidade e aumentam o reconhecimento dos produtos vinculados à região.
O turista de excelência exige infraestrutura de excelência
Uma das principais provocações apresentadas por Débora foi a necessidade de pensar o turismo a partir da qualidade de vida de quem trabalha no setor.
“Um turista de excelência exige um trabalhador de excelência, que tenha condições de vida de excelência.”
Para sustentar o crescimento da hotelaria, da gastronomia e dos novos empreendimentos, a Serra Gaúcha precisará avançar em áreas como moradia, transporte coletivo, saneamento, saúde, educação e mobilidade.
Sem essa estrutura, a expansão pode elevar o custo de vida, aumentar os congestionamentos, pressionar as áreas rurais, dificultar a contratação de profissionais e gerar conflitos entre visitantes e moradores.
O desenvolvimento turístico, portanto, não pode ser planejado apenas para quem visita. Ele precisa considerar também as pessoas que vivem e trabalham no território.
Como exemplo dos riscos do crescimento desordenado, foi citado o caso de Fredericksburg, nos Estados Unidos, destino vitivinícola que passou por rápida expansão e atualmente enfrenta problemas relacionados ao trânsito, à segurança e à convivência entre turistas e a população local.
Inteligência turística e proteção territorial
Embora o Vale dos Vinhedos já possua gastronomia, hotelaria, paisagem, reconhecimento nacional e produtos com origem certificada, ainda existem lacunas na organização de dados turísticos.
Débora chamou atenção para a falta de informações detalhadas sobre os visitantes estrangeiros, seus países de origem, formas de deslocamento, tempo de permanência e comportamento de consumo.
Sem dados estruturados, torna-se mais difícil desenvolver campanhas de atração, definir mercados prioritários e planejar investimentos.
Além da inteligência turística, a proteção territorial foi colocada como condição indispensável para o futuro do Vale dos Vinhedos.
Entre as iniciativas mencionadas está o PlanVale, planejamento territorial integrado envolvendo Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul. A proposta busca criar diretrizes comuns para o desenvolvimento sustentável da região.
Também foram mencionados projetos relacionados à mobilidade, como a Ciclovia Vale dos Vinhedos, capazes de qualificar a experiência turística sem comprometer a paisagem e a dinâmica das comunidades

Real estate deixa de vender apenas localização
No mercado imobiliário, a mesma transformação já está em andamento.
Lúcio Possebon destacou que os novos empreendimentos precisam superar a lógica de entregar apenas metragem, localização e estrutura física. O consumidor procura ambientes que ofereçam pertencimento, conveniência, design, sustentabilidade e experiências integradas ao cotidiano.
A força da indústria moveleira, da metalurgia, da arquitetura, do design, da gastronomia e da vitivinicultura cria uma base diferenciada para o desenvolvimento imobiliário da Serra Gaúcha.
Essas competências podem ser incorporadas aos projetos, transformando o imóvel em uma extensão da cultura e da qualidade produtiva regional.
Possebon também abordou a evolução das formas de financiamento do setor. Empresas que tradicionalmente dependiam apenas do capital familiar e do autofinanciamento passam a acessar crédito estruturado, instituições financeiras e o mercado de capitais, inclusive por meio de fundos imobiliários.
Essa mudança amplia a capacidade de investimento e permite a realização de projetos mais complexos.
Jardins Dona Isabel e a experiência de morar
Com VGV estimado em R$ 840 milhões, o Jardins Dona Isabel, em Bento Gonçalves, foi apresentado como exemplo dessa nova geração de empreendimentos.
O projeto reúne cinco torres e integra arquitetura, sustentabilidade, convivência, serviços e experiências urbanas. Sua concepção foi precedida por estudos vocacionais e análises sobre as necessidades futuras da cidade.
A proposta aproxima-se do conceito de “cidade de 5 minutos”, no qual o morador encontra, em um mesmo ecossistema, diferentes atividades e facilidades para o cotidiano.
O empreendimento também busca estabelecer conexões com a gastronomia, o vinho, o turismo e a vocação cultural de Bento Gonçalves.
Com premiações internacionais de arquitetura, o projeto demonstra como o real estate regional pode ganhar projeção ao incorporar design, identidade e propósito.
O imóvel, nesse contexto, deixa de ser um ativo isolado e passa a fazer parte de um sistema de experiências.

Crescer sem perder a identidade
O painel evidenciou que a Serra Gaúcha reúne condições para se posicionar entre os grandes destinos internacionais de experiência.
A região possui vinhos reconhecidos, gastronomia de identidade, empresas consolidadas, hotelaria de alto padrão, força industrial, arquitetura, design e um mercado imobiliário em expansão.
O desafio será transformar esses ativos em uma estratégia integrada, preservando a paisagem, a cultura e o acolhimento que diferenciam o território.
A chegada de grandes investimentos precisa estar acompanhada de planejamento, governança e compromisso com a identidade regional.
Mais do que reproduzir modelos como Napa Valley, Toscana, Douro ou Champagne, a Serra Gaúcha tem a oportunidade de construir um posicionamento próprio.
Um modelo baseado em sua origem italiana, na cultura do vinho, na capacidade empreendedora, na excelência industrial e na forma singular de receber.
O futuro do turismo regional não será medido apenas pelo número de visitantes. Será definido pelo tempo de permanência, pela qualidade das experiências, pela geração de valor e pela capacidade de fazer com que o crescimento beneficie também quem vive no território.
